Patrimônio

Para a UNESCO,

O Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes.(Veja mais >)

Em busca do caminho percorrido por essa manifestação em Saubara, os cheganceiros realizaram o Projeto Registrando as Marujadas de Saubara, quando foram publicados um livro, um documentário e um CD com músicas – uma coletânea intitulada Êta, Marujada! Selecionamos do livro, organizado por Scheilla Gumes e Rosildo Rosário, um trecho que revela um pouco da compreensão ali sistematizada do que se pode identificar como tradição nas cheganças:

A Chegança é expressão viva das tradições e sua mistura com o sagrado. Compromisso de fé em festa. Rituais ligados a passagem do tempo, da própria vida. Os jogos, folguedos. Por mais que se busque os porquês, é difícil encontrar respostas diretas, explicações concatenadas. São impulsos de raízes profundas, que sequer precisam fazer parte de um mundo controlado, decifrado pelos mecanismos da razão.

O belo texto A Bahia de Outrora, de 1916, é uma espécie de dicionário em que o baiano Manuel Querino, um dos mais importantes intelectuais afrobrasileiros, descreve cada manifestação popular já vista por ele. E lá, entre elas, está a Chegança. O modo como ou a circunstância em que acontecem e até as impressões gerais da sociedade da época a respeito de tais grupos e lideranças populares são pontuadas com a minúcia necessária.

Ele já falava de tempos saudosos, da época patriarcal em que os pescadores tinham na chegança um momento especial de festa. E assim ainda o é. Talvez, o patriarcado nem tanto. Mas a festa… Querino considera a chegança uma cena ou auto das cruzadas, que aparecia nas festas de Reis, S. João e 2 de Julho. Para ele “fôra, antigamente, dos divertimentos populares, talvez o mais importante”.